Arquivo da categoria: Advento

>A vinda do Reino

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Estamos no ano da graça de Nosso Senhor Jesus Cristo de dois mil e dez! Antes de Cristo e depoisde Cristo! Assim se referem as indicações históricas. Mesmo quem não acreditan’Ele continua datando os acontecimentos a partir do Seu nascimento. A Ele a honrae a glória, Aquele que é o primeiro e o último, o princípio e o fim, Alfa eÔmega. E nós cristãos consideramos ano litúrgico o tempo que vai do primeirodomingo do Advento à Solenidade de Cristo Rei. Começa um tempo novo, ainda queo calendário não tenha chegado ao dia trinta e um de dezembro. Quando janeirovier, já estaremos imbuídos de uma nova mística, que vem do Alto!
A vinda do Reino, arealização da vontade do Pai e o reconhecimento da santidade de Seu nome seencontram presentes na oração mais perfeita, ensinada por Jesus, o Pai-Nosso.Temos em nós o desejo do infinito, o sonho da perfeição, para nunca nossaciarmos com algo que seja menos do que Deus. Sim, é o infinito do amor quenos atrai, para que caminhemos de perfeição em perfeição, até chegar àplenitude.
O Reino de Deusestá presente no mundo sem que precisemos buscar sinais estrondosos de suapresença. Basta-nos olhar ao redor para descobrirmos os seus sinais. Um reinoeterno e universal: reino de verdade e de vida, reino de santidade e de graça,reino de justiça, de amor e de paz. Mas este Reino devecrescer e se implantar, para que Deus seja tudo em todos.
Jesus Cristo é Rei,mas não nos modelos do mundo. Nós O vemos diante de Pilatos proclamando Seureinado, mas coroado de espinhos, dando a vida pela salvação de todos. Seutrono é a Cruz, na qual proclama decretos inusitados ao pedir ao Pai o perdãopelos próprios algozes ou ao anistiar o Bom Ladrão. De lá para cá, Seutrono-cruz foi plantado sobre colinas e dentro dos corações. Seu Reino seespalha silencioso, discreto e presente, contando com agentes que podem serpobres ou ricos, de todas as raças, línguas e nações. Nosso olhar mais atentomostrará sinais de esperança e sadio otimismo.
A pregação de Jesus éo anúncio do Reino de Deus, uma verdadeira paixão que perpassa todas as Suaspalavras. Reino que é comparado com plantas, rebanhos, histórias de pessoas efamílias transformadas em parábolas, para que as pessoas abram o coração eentendam o que Ele diz. Reino que já chegou e há de ser pedido na oração,misterioso! E mistério é algo que sempre pode ser um pouco mais compreendido,nunca se esgota!
Numa de Suasafirmações lapidares, o Senhor proclama “buscai o Reino de Deus e a suajustiça, e todas as coisas serão dadas por acréscimo” (cf. Mt 6,33). A atualização do Reino de Deus depende de nossa liberdade, poisse trata de uma forma nova de viver, que é proposta e não imposta. Àquelas pessoas quese deixarem provocar pelo Reino de Deus, a Igreja indica para estes dias de fimde ano um caminho de revisão de vida.
Que valoresorientaram as decisões tomadas nos diversos âmbitos da vida pessoal e social?Em torno de nós floresceu o respeito à vida e à dignidade das pessoas? Vivemospara os outros ou cada um se interessou apenas por si mesmo, sem olhar aoredor? Nossos sonhos e projetos incluem o bem comum? E as perguntas podem sermuitas, conduzindo a novas decisões. Não precisaremos buscar adivinhos ouprevisões futurológicas para vivermos o novo ano se vivermos bem cada momentopresente, iluminados pelos valores do Reino de Deus. Cada surpresa serábem-vinda!
E o que fazer com aseventuais dificuldades que certamente aparecem pelas esquinas da vida? Elasserão transformadas em novas decisões pelo serviço a Deus e ao próximo, nadivina alquimia do amor, lei suprema do Reino de Deus. O tempo do cristão não éapenas o correr inexorável do relógio, mas oportunidade (Kairós!), nova chance oferecida pela Providência Divina. E venha o Reino deDeus e a sua justiça!
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Dom Alberto TaveiraCorrêa
Arcebispo de Belém – PA

>Advento – Tempo de Esperança!

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O Advento (do latim Adventus: “chegada”, do verbo Advenire: “chegar a”) é o primeiro tempo do Ano litúrgico, o qual antecede o Natal. Para os cristãos, é um tempo de preparação e alegria, de expectativa, onde os fiéis, esperando o Nascimento de Jesus Cristo, vivem o arrependimento e promovem a fraternidade e a Paz. No calendário religioso este tempo corresponde às quatro semanas que antecedem o Natal.

A primeira referência ao “Tempo do Advento” é encontrada na Espanha, quando no ano 380, o Sínodo de Saragossa prescreveu uma preparação de três semanas para a Epifania, data em que, antigamente, também se celebrava o Natal. Na França, Perpétuo, bispo de Tours, instituiu seis semanas de preparação para o Natal e, em Roma, o Sacramentário Gelasiano cita o Advento no fim do século V.

Há relatos de que o Advento começou a ser vivido entre os séculos IV e VII em vários lugares do mundo, como preparação para a festa do Natal. No final do século IV na Gália (atual França) e na Espanha, tinha caráter ascético com jejum, abstinência e duração de 6 semanas como na Quaresma (quaresma de S. Martinho). Este caráter ascético para a preparação do Natal se devia à preparação dos catecumenos para o batismo na festa da Epifania.
Somente no final do século VII, em Roma, é acrescentado o aspecto escatológico do Advento, recordando a segunda vinda do Senhor e passou a ser celebrado durante 5 domingos.
Só mais tarde é que o Advento passou a ser celebrado nos seus dois aspectos: a vinda definitiva do Senhor e a preparação para o Natal, mantendo a tradição das 4 semanas. A Igreja entendeu que não podia celebrar a liturgia, sem levar em consideração a sua essencial dimensão escatológica.

O tempo do Advento é para toda a Igreja, momento de forte mergulho na liturgia e na mística cristã. É tempo de espera e esperança, de estarmos atentos e vigilantes, preparando-nos alegremente para a vinda do Senhor, como uma noiva que se enfeita, se prepara para a chegada de seu noivo, seu amado.
O Advento começa às vésperas do Domingo mais próximo do dia 30 de Novembro e vai até as primeiras vésperas do Natal de Jesus contando quatro domingos.
Esse tempo possui duas características: Nas duas primeiras semanas, a nossa expectativa se volta para a segunda vinda definitiva e gloriosa de Jesus Cristo, Salvador e Senhor da história, no final dos tempos – a vinda escatológica de Cristo. As duas últimas semanas, dos dias 17 a 24 de Dezembro, visam em especial, a preparação para a celebração do Natal, a primeira vinda de Jesus entre nós. Por isto, o Tempo do Advento é um tempo de piedosa e alegre expectativa. Uma das expressões desta alegria é o canto das chamada “Antífonas do Ó”.
O Advento recorda a dimensão histórica da salvação, evidencia a dimensão escatológica do mistério cristão e nos insere no caráter missionário da vinda de Cristo.
Ao serem aprofundados os textos litúrgicos desse tempo, constata-se na história da humanidade o mistério da vinda do Senhor, Jesus, que de fato se encarna e se torna presença salvífica na história, confirmando a promessa e a aliança feita ao povo de Israel. Deus que, ao se fazer carne, plenifica o tempo (Gl 4,4) e torna próximo o Reino (Mc 1,15).
O Advento recorda também o Deus da Revelação. Aquele que é, que era e que vem (Ap 1, 4-8), que está sempre realizando a salvação mas cuja consumação se cumprirá no “dia do Senhor”, no final dos tempos.
O caráter missionário do Advento se manifesta na Igreja pelo anúncio do Reino e a sua acolhida pelo coração do homem até a manifestação gloriosa de Cristo. As figuras de João Batista e Maria são exemplos concretos da vida missionária de cada cristão, quer preparando o caminho do Senhor, quer levando o Cristo ao irmão para o santificar. Não se pode esquecer que toda a humanidade e a criação vivem em clima de advento, de ansiosa espera da manifestação cada vez mais visível do Reino de Deus.
A celebração do Advento é, portanto, um meio precioso e indispensável para nos ensinar sobre o mistério da salvação e assim termos a Jesus como referência e fundamento, dispondo-nos a “perder” a vida em favor do anúncio e instalação do Reino.
A liturgia do Advento nos impulsiona a reviver alguns dos valores essenciais cristãos, como a alegria expectante e vigilante, a esperança, a pobreza, a conversão.
Deus é fiel a suas promessas: o Salvador virá; daí a alegre expectativa, que deve nesse tempo, não só ser lembrada, mas vivida, pois aquilo que se espera acontecerá com certeza. Portanto, não se está diante de algo irreal, fictício, passado, mas diante de uma realidade concreta e atual. A esperança da Igreja é a esperança de Israel já realizada em Cristo mas que só se consumará definitivamente na parusia (volta) do Senhor. Por isso, o brado da Igreja característico nesse tempo é “Marana tha”! Vem Senhor Jesus!

O tempo do Advento é tempo de esperança porque Cristo é a nossa esperança (I Tm 1, 1); esperança na renovação de todas as coisas, na libertação das nossas misérias, pecados, fraquezas, na vida eterna, esperança que nos forma na paciência diante das dificuldades e tribulações da vida, diante das perseguições, etc.
O Advento também é tempo propício à conversão. Sem um retorno de todo o ser a Cristo, não há como viver a alegria e a esperança na expectativa da Sua vinda. É necessário que “preparemos o caminho do Senhor” nas nossas próprias vidas, lutando incessantemente contra o pecado, através de uma maior disposição para a oração e mergulho na Palavra.
No Advento, precisamos nos questionar e aprofundar a vivência da pobreza. Não pobreza econômica, mas principalmente aquela que leva a confiar, se abandonar e depender inteiramente de Deus e não dos bens terrenos. Pobreza que tem n’Ele a única riqueza, a única esperança e que conduz à verdadeira humildade, mansidão e posse do Reino.
O Advento deve ser celebrado com sobriedade e com discreta alegria. Não se canta o Glória, para que na festa do Natal, nos unamos aos anjos e entoemos este hino como algo novo, dando glória a Deus pela salvação que realiza no meio de nós. Pelo mesmo motivo, o diretório litúrgico da CNBB orienta que flores e instrumentos sejam usados com moderação, para que não seja antecipada a plena alegria do Natal de Jesus.
Os paramentos litúrgicos são de cor roxa, como sinal de recolhimento e conversão em preparação para a festa do Natal. A única exceção é o terceiro domingo do Advento, Domingo Gaudete ou da Alegria, cuja cor tradicionalmente usada é a rósea, em substituição ao roxo, para revelar a alegria da vinda do Salvador que está bem próxima. Também os altares são ornados com rosas cor-de-rosa. O nome de Domingo Gaudete refere-se à primeira palavra do intróito deste dia, que é tirado da segunda leitura que diz: “Alegrai-vos sempre no Senhor. Repito, alegrai-vos, pois o Senhor está perto”(Fl 4, 4). Também é chamado “Domingo mediano”, por marcar a metade do Tempo do Advento, tendo anologia com o quarto domingo do Tempo da Quaresma, chamado Laetare.
“Tempo de esperança e de viver
Tempo de ser novo e renascer
Eis que uma criança já se anuncia
Dentro de Maria o céu conosco está
Tempo de esperança e de alegria
Vamos esperar que o Senhor virá
O Libertador já vem!”

>Quando virá, Senhor, o dia? – Cântico do Advento

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