Arquivo da categoria: Formação

>Padre, deixe a Liturgia falar!

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               Há alguns meses atrás, participei de uma missa e fiquei agradavelmente surpresa com a maneira de o padre presidir, concentrando-se em seu papel de presidência, sem interromper a toda hora a ação ritual com explicações ou introduções, ‘homiliazinhas’, brincadeiras, ou reclamações, como tantas vezes se vê por aí, banalizando a liturgia, impedindo o mergulho no mistério celebrado. Depois da missa, fui agradecer pelo momento espiritual simples e profundo que nos havia proporcionado. E ele respondeu: “Aprendi com uma comunidade religiosa da qual fui capelão. Um certo dia, me chamaram e disseram: Padre, não fale. Deixe a liturgia falar!”
Deixe a liturgia falar! Entre no seu ritmo ritual, dialogal! Não interrompa o diálogo da Aliança entre a comunidade e o seu Senhor. Sinta-se incorporado na assembléia, como parte dela, em toda simplicidade e autenticidade, objetivamente, tranqüilamente, sem autoritarismo e sem se preocupar em ‘agradar’ ou ‘motivar’ a ‘platéia’ e ser aceita por ela.
Assuma o papel da presidência de uma comunidade, orante, ouvinte, cantante…, celebrando com ela e não para a mesma. Deixe que a pessoa do Cristo transpareça por você, lembrando as palavras de João Batista: É necessário que ele cresça e que eu diminua… (Cf. Jo 3, 30). O momento é sagrado! A ação é decisiva para nossa vida. Estamos em contato com a seiva de nossas raízes, estamos sorvendo o sentido de nossa vida e de nossa morte, de nossos amores e desamores, de nossos empenhos, êxitos e fracassos… Estamos diante do Senhor, para sermos transformados/as ‘pascalmente’ por seu Espírito.  
Acredite profundamente naquilo que está realizando. Aprenda de cor os pequenos diálogos que fará com a assembléia, como a saudação inicial, a introdução ao evangelho, o diálogo inicial do prefácio, o convite à oração do pai-nosso, a apresentação do pão e do vinho eucaristizados, a bênção final…
Não leia orações; mas ore, de verdade, ainda que use as palavras prescritas no missal. Não copie sua homilia da internet ou de algum subsídio, mas tome seu tempo para debruçar-se sobre as leituras bíblicas, procurando qual a Palavra viva do Senhor hoje para esta comunidade (da qual você faz parte!); não faça da homilia um discurso, mas uma conversa familiar em tom pessoal.
Não corra durante a oração eucarística, recitando-a de uma forma impessoal, numa corrida desenfreada a ‘cento e vinte por hora’, como se não tivesse valor nenhum, como se não fosse um diálogo com o Pai!  Não destaque de repente as palavras da narrativa da última ceia, mudando o ritmo e o tom de voz, como se somente estas palavras valessem a pena a serem proclamadas e ouvidas. E lembre-se de que não se trata de uma fala dirigida à assembléia, mas ao Pai, lembrando o que seu querido Filho nos mandou fazer!
Não descuide dos preciosos silêncios previstos no decorrer da ação litúrgica, como um dos elementos essenciais para podermos descer até o fundo do coração e ouvir aí a voz do Pai. Deixe-se ‘contaminar’ pela fé e o fervor da comunidade. Sintonize com o Sopro de Deus, o Sopro de Jesus, o Espírito Santo, que ora e canta em você e em toda a comunidade. Ele nos une, a todos e todas, num só corpo e num só Espírito.
Tudo o que foi dito até agora certamente vale também para os outros ministérios litúrgicos: por favor, não interrompam a ação litúrgica com comandos e explicações; deixem a liturgia falar por si. 

Escrito por Ione Buyst
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>Ressurreição, tempo de misericórdia

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O tempo é de ressurreição. Já não podemos mais ouvir os gritos do calvário, o movimento curioso de quem desejava a tragédia , a morte pública e cruel. O que temos é o jardim vistoso sugerindo primaveras. A vida revestida de cores mansas como se uma chuva miúda devolvesse aos poucos o frescor que combina com as manhãs.

O que me instiga em tudo isso é a falta de provas para o fato. O sepulcro estava aberto, vazio. Mas isso não era o suficiente para que a ressurreição fosse proclamada. Alguém poderia ter roubado o corpo. Não faltariam incrédulos para essa suspeita.

A certeza da ressurreição não consiste em provas materiais para o fato. A imposição dessa verdade não passa pela materialidade do mundo, nem tampouco pode ser explicada através das claras regras que foram postuladas por nossa razão cartesiana.

Estamos falando de algo maior, superior. O que despertou o grito da ressureição foi o encontro dos olhares de quem havia estado com Ele. Foi o momento em que João reconheceu em Pedro a presença do Mestre. Resquícios esquecidos na alma, doação existencial que o configurava de forma renovada, como se tivesse nascido de novo.

“Ele está no meio de nós!” – A voz proclama. Gita o que ainda não compreende. Grita o que intui em mistério, o que descobre aos poucos. A alma reconhece na carne o milagre da continuidade. Os desdobramentos da Eucaristia celebrada dias antes tornam-se evidentes. João vê na carne de Pedro a carne de Jesus. É o mesmo sangue, é a comunhão estabelecida. O sangue jorrado na cruz encontrou novas veias e por elas corre.

É o olhar epifânico ardendo como a sarça ardeu diante dos olhos de Moisés. Sarça humana, pupilas dilatas de alegria, incapacitadas de esconderem os olhos que estavam por trás dos olhos de Pedro. Olhos que deixaram de brilhar no calvário, mas que agora são reacendidos nos olhos do amigo que ficou. O apóstolo é a continuidade do Mestre. Simbiose que faz o agir ser o mesmo, como se uma costura atasse a vida de Pedro à vida de Cristo.

É o ser emprestado em sacramento, força que o altar atualiza e que a alma recebe prostrada, generosa. A sobrevivência do Cristo passa pela alma que o aceita. É preciso acolher o dom de ser ressurreto. Passa pela nossa carne esta mística que nunca terá fim. Não aceitá-la é o mesmo que viver a privação da felicidade. Não é possível ser feliz fora desta dinâmica. As religiões nos ensinam. É preciso aprender. O altar estendido é o banquete do encontro. O Cristo sentado à mesa nos ensina de forma simples e duradoura que é preciso crescer na ressurreição. Ele nos dá de comer. “Isto é o meu corpo”. Ele nos dá de beber. “Isto é o meu sangue”.

É Nele que nos transformamos. Quando por Ele nos decidimos, Dele nos tornamos continuidade. Cada um ao seu modo vive o seu processo. É estrada humana também. Jesus nos ensinou a humanidade antes de nos propor o céu. Por isso o aperfeiçoamento de tudo o que é humano é exercício de santidade. O pecado nos mata, mas a ressurreição nos socorre.

Viver e morrer são dinâmicas inevitáveis. Cada um sabe o tanto que morre. Cada um sabe o tanto que vive. As escolhas estão por toda parte.

Mas o Cristo está diante de nós. Em suas mãos não há outra coisa senão a sua Misericórdia. O motivo de sua morte é o motivo de nossa vida. Ele morreu porque quis nos ensinar que a justiça divina compreende também a sua capacidade de amar. Ele nos deu o direito de sermos íntimos do Pai. Ensinou caminhos simples, diretos, sem rodeios.

Ensinou que podemos ser santos, mesmo sendo proprietários de tantos defeitos. Ensinou que há sempre uma esperança escondida dentro de nós, e que procurar por ela é um jeito bonito que temos de colocar os nossos passos nas marcas de seus pés.

Neste tempo de Ressurreição queiramos a sua misericórdia.
Eu quero. Queira também. Eternamente.

Pe Fábio de Melo

>Uma questão de escolha

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O coração anda no compasso que pode. Amores não sabem esperar o dia amanhecer. O exemplo é simples. O filho que chora tem a certeza de que a mãe velará seu sono. A vida é pequena, mas tão grande nestes espaços que aos cuidados pertencem. Joelhos esfolados são representações das dores do mundo. A mãe sabe disso. O filho, não. Aprenderá mais tarde, quando pela força do tempo que nos leva, ele precisará cuidar dos joelhos dos seus pequenos. O ciclo da história nos direciona para que não nos percamos das funções. São as regras da vida. E o melhor é obedecê-las. Tenho pensado muito no valor dos pequenos gestos e suas repercussões. Não há mágica que possa nos salvar do absurdo. O jeito é descobrir esta migalha de vida que sob as realidades insiste em permanecer. São exercícios simples… Retire a poeira de um móvel e o mundo ficará mais limpo por causa de você. É sensato pensar assim. Destrua o poder de uma calúnia, vedando a boca que tem ânsia de dizer o que a cabeça ainda não sabe, e alguém deixará de sofrer por causa de seu silêncio. Nestas estradas de tantos rostos desconhecidos é sempre bom que deixemos um espaço reservado para a calma. Preconceitos são filhos de nossos olhares apressados. O melhor é ir devagar. Que cada um cuide do que vê. Que cada um cuide do que diz. A razão é simples: o Reino de Deus pode começar ou terminar, na palavra que que escolhemos dizer. É simples…

Pe Fábio de Melo

>Seguir Jesus: o cerne de toda espiritualidade cristã

>Seguir Jesus não é copiar – como escravo – a sua vida.
É fazer sua opção de vida dele, na originalidade de suas próprias possibilidades.
E na situação em que você vive concretamente.
É viver para os valores pelos quais Jesus viveu e morreu.
É, igualmente, seguir o caminho que Ele percorreu e fazer sua a mentalidade dele.
Quando esta vida e este caminho são indicados por Deus
E neles, Ele se revela mais fortemente
Aí está, então, a realidade do amor.
Da sua vida ficará o que se tornou amor.
O que é amor verdadeiro pode ser aprendido com Jesus.
Ele é, de fato, aquele que mais amou
Ele lhe ensina a esquecer você mesmo e transportar-se para o outro,
Pois ninguém tem amor maior do que aquele que dá sua vida aos amigos.
Ele também lhe ensina a abrir-se aos outros sem limites:
A ser convite e disponibilidade.
“Vinde todos a mim que estais aflitos sob o fardo e eu vos aliviarei”.
Converta-se, então, cada dia em amor.
Transforme todas as suas energias em dom.
Mude interiormente e o Reino de Deus se manifestará através de você.
Você foi chamado a seguir Jesus sem reservas.
Com Ele você quer caminhar a Jerusalém, cidade de sofrimento e de glória.
Com Ele, quer dar tudo para que venha o Reino.
Neste caminho, você foi chamado para ser o menor, não para dominar;
Para carregar os fardos dos outros e não para os impor a eles;
Para dar liberdade em vez de tomá-la;
Para tornar-se pobre, fazendo os outros ricos;
Para tomar a cruz, dando alegria aos outros;
Para morrer a fim de que os outros vivam.
Isto é o segredo do Evangelho como boa notícia de vida,
Sobre o qual é melhor calar-se, pois o Evangelho torna-se somente verdadeiro e autêntico
Quando você o pratica.
Tenha sempre a Jesus Cristo diante dos olhos.
Não hesite em segui-lo.
Não pare, não olhe para trás, mas veja o que está na sua frente.


Referência: “Espiritualidade do discipulado”. Frater Henrique Cristiano José Matos, CMM – Editora O Lutador, pág 27.



>Vida Religiosa: Ser Consagrado a Deus para o serviço do Reino

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1. Identidade da Vida Religiosa Consagrada
A vida religiosa  é, antes de tudo, uma iniciativa de Deus na vida do batizado. Na gratuidade o Senhor chama o ser humano a uma íntima comunhão com Ele, convidando-o a conformar sua vida à do Cristo sob a atração do Espírito. E esta consagração específica está a serviço do Reino, projeto fundamental da missão de Jesus.
A livre aceitação desta imerecida predileção de amor do Pai, leva a pessoa a um aprofundamento de sua consagração batismal. Assume, em liberdade, uma vida cristiforme mediante a vivência dos conselhos evangélicos. É dentro da comunidade da Igreja que essa consagração adquire seu pleno significado.
O carisma da vida religiosa consagrada é essencialmente eclesial, sendo no interior da Igreja sinal e memória, testemunho e profecia dos valores centrais do Evangelho e do Reino.
A vida consagrada, de fato, “é uma diaconia para o Reino, de caráter público, provocativo, comunitário, criativo, audacioso, arraigado na experiência contemplativa de Deus que plasmou a vida e o seu destino”¹.

2. Em busca de uma vida cristiforme
O consagrado aspira a uma vida em crescente conformação com Cristo. Procura assimilar cada vez mais o estilo de vida de Jesus no seu modo de ser e agir. Semelhante programa de vida é normativo para todos os batizados e não algo privativo de eleitos! O religioso consagrado – por pura graça divina – é convidado a aprofundar e radicalizar o comum seguimento do Senhor na realidade histórica de hoje.
A vida consagrada tem, na Igreja, “a missão de fazer com que resplandeça a forma de vida de Cristo, por meio do testemunho dos conselhos evangélicos, para sustento da fidelidade de todo o Corpo de Cristo”².
3. A comunhão pessoal com o Senhor
Se a vida religiosa brota de um projeto de amor do Pai, no seguimento de Jesus, pela força do Espírito Santo, ela exige, por coerência interna, uma comunhão contínua com o Senhor. Deve expressar a primazia de Deus, fonte de seu sentido e realização, pois o homem – no dizer de Santo Agostinho (+ 430) – está feito para Deus e vive inquieto até encontrar Nele a paz. Coloca-se para o religioso a exigência incontornável de alimentar-se de uma espiritualidade sólida e profunda.

“Podemos dizer que a vida espiritual, considerada como vida em Cristo, vida segundo o Espírito, se apresenta como um itinerário de crescente fidelidade, onde a pessoa consagrada é guiada pelo Espírito e por Ele configurada com Cristo, em plena comunhão de amor e de serviço na Igreja.” (João Paulo II. A Vida Consagrada: exortação apostólica pós-sinodal sobre a Vida Consagrada e a sua missão na Igreja e no mundo (23-3-1996).

Trata-se de uma experiência de partilha de vida com o Senhor, de uma graça especial de intimidade com Ele. O próprio significado da vida religiosa e seu dinamismo interno dependem desse impulso espiritual, sem o qual ela se esvazia e descaracteriza. Abrange, substancialmente, uma fidelidade progressiva para responder à superabundância do amor divino na pessoa do religioso. Quem, de fato, entrega livremente sua própria vida a Cristo vive no desejo de se encontrar com Ele, para estar finalmente e para sempre com o Senhor!

4.  Escuta da Palavra e oração incessante

A Palavra de Deus é a primeira fonte da vida cristã. Sustenta na Igreja o relacionamento pessoal e comunitário com o Senhor. A renovada escuta da Palavra de Deus interpela, orienta e plasma a existência dos consagrados. É através dela que o Senhor se revela, e educa coração e inteligência do discípulo. Faz amadurecer igualmente a visão de fé, pois aprende-se a olhar a realidade e os acontecimentos com o mesmo olhar de Deus até chegar a ter o “pensamento de Cristo” (1Cor 2, 16). Um meio privilegiado que diariamente, nos coloca em contato íntimo com a Palavra de Deus é a celebração da eucaristia e seu prolongamento na Liturgia das Horas.
A eucaristia, como memorial pascal do Senhor, é o coração da vida da Igreja. Nela se encontram todas as formas de oração: “proclama-se e é acolhida a Palavra de Deus, somos interpelados a respeito de nossa relação com Deus, com os irmãos e com todos os homens: é o sacramento da filiação, da fraternidade e da missão. Sacramento da unidade com Cristo, a Eucaristia é contemporaneamente sacramento da unidade eclesial e da unidade da comunidade dos consagrados.
A Liturgia das Horas, por sua vez, insere nosso dia-a-dia no tempo de Deus e assim o “santifica” no sentido genuíno do termo. Para o religioso, a celebração da liturgia das horas deveria ser motivo de gratidão e alegria. Expressa seu mais profundo anseio: estar em comunhão permanente com o Senhor.

“Frequentemente, no entanto, a realidade é outra. Não poucas comunidades religiosas de vida apostólica perderam (ou nunca tiveram!) o gosto pelo Ofício Divino e caíram na apatia, no formalismo ou na rotina. É verdade que não devam ser minimalizadas as dificuldades em relação a esta oração da Igreja. Nota-se, muitas vezes, uma falta de formação, particularmente na jovem geração de consagrados, no que diz respeito à Liturgia das Horas”. 

Não é segredo para ninguém que uma celebração significativa da oração pública da Igreja exige uma introdução catequética adequada. Garantida esta, a Liturgia das Horas pode tornar-se para os consagrados um verdadeiro “kairós”, um tempo de graça, pelas riquezas espirituais e potencialidades orantes que representa.
Apresenta-se, igualmente, como uma expressão eloquente da vida comunitária na caridade fraterna pela qual os religiosos são chamados a serem sinais e testemunhas da Igreja.
5. Oração e fecundidade apostólica
A vida religiosa proclama pelo seu próprio ser o primado de Deus. De fato, sem Cristo nada podemos fazer (cf Jo 15, 5) e, de outro lado, tudo podemos Naquele que nos fá força (cf. Ef 4, 13). Quanto mais o consagrado se deixa conformar com Cristo, tanto mais fecunda será sua ação apostólica. Com uma vida paulatinamente transformada pelos valores do Evangelho, o profetismo – inerente a toda autêntica vida religiosa – ganhará qualidade e profundidade. Tornar-se-á um protesto silencioso mas eficaz contra uma sociedade desumana com sua ditadura do ter, seu mito de poder e seus mecanismos de exclusão.
Na íntima e perseverante comunhão de vida com o Senhor crescerá a caridade, razão de ser da nossa existência. Começaremos a viver-para-os-outros, privilegiando os últimos da sociedade (cf Mt 25, 40). Assim, o Deus encontrado na oração e na contemplação é igualmente descoberto naqueles com quem o Jesus histórico se identificou: pobres, oprimidos, marginalizados, idosos, doentes e prisioneiros.
Ñão resta dúvida: o nosso engajamento em prol do Reino depende da qualidade de nossa vida-em-Deus: “Eu sou a vinha, vós sois os sarmentos: aquele que permanece em mim e no qual eu permaneço, esse produzirá frutos em abundância, pois, separados de mim, nada pois fazer” (cf. Jo 15). É o próprio Jesus que nos dá o exemplo de como unir a comunhão com Deus e uma vida de intensa atividade. Sem o cultivo de tal unidade, o religioso corre o risco de colapso interior, de desorientação e desânimo, perdendo aos poucos a própria razão de ser de sua consagração.

“É, precisamente, no simples quotidiano que a vida consagrada cresce, em progressivo amadurecimento, a fim de se tornar anúncio de um modo de viver alternativo aos do mundo e da cultura dominante. Com o estilo de vida e a busca do Absoluto, sugere quase que uma terapia espiritual para os males do nosso tempo. Por isso, no coração da Igreja representa uma bênção e um motivo de esperança para a vida humana e para a própria vida eclesial”.

Extraído do livro Liturgia das Horas e Vida Consagrada,  
Frater Henrique Cristiano José Matos 

>Permanecei em mim…

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Permanecei em mim, e eu permanecerei em vós. 
Aquele que permanece em mim, 
como eu nele, esse dá muito fruto; 
pois sem mim, nada podeis fazer. 
Se permanecerdes em mim, 
e minhas palavras permanecerem em vós, 
pedi o que quiserdes e vos será dado. 
Nisto meu Pai é glorificado: 
que deis muito fruto e vos torneis meus discípulos. 
Como meu Pai me ama,  assim também eu vos amo. 
Permaneceis no meu amor. 
Eu vos disse isso, para que minha alegria esteja em vós,
 e a vossa alegria seja completa. 
(cf Jo 15, 1-11)

>O Purgatório existe?

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Os católicos acreditam na existência do purgatório, mas a Bíblia não fala dele. É verdade que na Sagrada Escritura não se encontra a palavra “purgatório”, como também não achamos nela as palavras “sacramento da confissão”, “Eucaristia” e “Crisma”. No entanto, a Bíblia descreve situações, estados ou lugares que se identificam com a ideia de purgatório.

Em II Macabeus 12,43-46 lemos: “Judas, tendo feito uma coleta, mandou duas mil dracmas e prata a Jerusalém, para se oferecer um sacrifício pelo pecado. Obra bela e santa, inspirada pela crença na ressurreição… Santo e salutar pensamento de orar pelos mortos. Eis porque ele ofereceu um sacrifício expiatório pelos defuntos, para que fossem livres de seus pecados”. Ora, ser livre de seus pecados, depois da morte, pelo sacrifício expiatório, indica claramente a existência do purgatório.

Alguns biblistas percebem a confirmação do purgatório nas palavras de Jesus em Mateus 5,25-26: “Põe-te depressa de acordo com o teu adversário, enquanto estás ainda em caminho (da vida) com ele; a fim de que teu adversário não te entregue ao juiz, e o juiz ao guarda, e sejas metido na prisão. Em verdade te digo: Não sairás de lá, enquanto não pagares até o último centavo”. É claro que Jesus fala do justo juizo divino, depois da morte. Ora, sair dessa prisão depois da morte, depois de ter pago o último centavo (seja pelo sofrimento, seja pelas orações e expiações dos vivos) pode acontecer só no purgatório.

Outra alusão à existência do purgatório encontramos em I Coríntios 3,12-15: “[…] Aquele, cuja obra (de ouro, prata, pedras preciosas) sobre o alicerce resistir, esse receberá a sua paga, aquele, pelo contrário, cuja obra, (de madeira, feno, ou palha ), for queimada, esse há de sofrer o prejuízo; ele próprio, porém, poderá salvar-se, mas como que através do fogo.” Também aqui a Tradição Apostólica entendia fogo do purgatório.

Entre testemunhas cristãs dos primeiros séculos, escreve Tertuliano: “A esposa roga pela alma de seu esposo e pede para ele refrigério, e que volte a reunir-se com ele na ressurreição; oferece sufrágios todos os dias aniversários de sua morte” (De Monogamia, 10).

Padre Anderson Marçal

>A vinda do Reino

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Estamos no ano da graça de Nosso Senhor Jesus Cristo de dois mil e dez! Antes de Cristo e depoisde Cristo! Assim se referem as indicações históricas. Mesmo quem não acreditan’Ele continua datando os acontecimentos a partir do Seu nascimento. A Ele a honrae a glória, Aquele que é o primeiro e o último, o princípio e o fim, Alfa eÔmega. E nós cristãos consideramos ano litúrgico o tempo que vai do primeirodomingo do Advento à Solenidade de Cristo Rei. Começa um tempo novo, ainda queo calendário não tenha chegado ao dia trinta e um de dezembro. Quando janeirovier, já estaremos imbuídos de uma nova mística, que vem do Alto!
A vinda do Reino, arealização da vontade do Pai e o reconhecimento da santidade de Seu nome seencontram presentes na oração mais perfeita, ensinada por Jesus, o Pai-Nosso.Temos em nós o desejo do infinito, o sonho da perfeição, para nunca nossaciarmos com algo que seja menos do que Deus. Sim, é o infinito do amor quenos atrai, para que caminhemos de perfeição em perfeição, até chegar àplenitude.
O Reino de Deusestá presente no mundo sem que precisemos buscar sinais estrondosos de suapresença. Basta-nos olhar ao redor para descobrirmos os seus sinais. Um reinoeterno e universal: reino de verdade e de vida, reino de santidade e de graça,reino de justiça, de amor e de paz. Mas este Reino devecrescer e se implantar, para que Deus seja tudo em todos.
Jesus Cristo é Rei,mas não nos modelos do mundo. Nós O vemos diante de Pilatos proclamando Seureinado, mas coroado de espinhos, dando a vida pela salvação de todos. Seutrono é a Cruz, na qual proclama decretos inusitados ao pedir ao Pai o perdãopelos próprios algozes ou ao anistiar o Bom Ladrão. De lá para cá, Seutrono-cruz foi plantado sobre colinas e dentro dos corações. Seu Reino seespalha silencioso, discreto e presente, contando com agentes que podem serpobres ou ricos, de todas as raças, línguas e nações. Nosso olhar mais atentomostrará sinais de esperança e sadio otimismo.
A pregação de Jesus éo anúncio do Reino de Deus, uma verdadeira paixão que perpassa todas as Suaspalavras. Reino que é comparado com plantas, rebanhos, histórias de pessoas efamílias transformadas em parábolas, para que as pessoas abram o coração eentendam o que Ele diz. Reino que já chegou e há de ser pedido na oração,misterioso! E mistério é algo que sempre pode ser um pouco mais compreendido,nunca se esgota!
Numa de Suasafirmações lapidares, o Senhor proclama “buscai o Reino de Deus e a suajustiça, e todas as coisas serão dadas por acréscimo” (cf. Mt 6,33). A atualização do Reino de Deus depende de nossa liberdade, poisse trata de uma forma nova de viver, que é proposta e não imposta. Àquelas pessoas quese deixarem provocar pelo Reino de Deus, a Igreja indica para estes dias de fimde ano um caminho de revisão de vida.
Que valoresorientaram as decisões tomadas nos diversos âmbitos da vida pessoal e social?Em torno de nós floresceu o respeito à vida e à dignidade das pessoas? Vivemospara os outros ou cada um se interessou apenas por si mesmo, sem olhar aoredor? Nossos sonhos e projetos incluem o bem comum? E as perguntas podem sermuitas, conduzindo a novas decisões. Não precisaremos buscar adivinhos ouprevisões futurológicas para vivermos o novo ano se vivermos bem cada momentopresente, iluminados pelos valores do Reino de Deus. Cada surpresa serábem-vinda!
E o que fazer com aseventuais dificuldades que certamente aparecem pelas esquinas da vida? Elasserão transformadas em novas decisões pelo serviço a Deus e ao próximo, nadivina alquimia do amor, lei suprema do Reino de Deus. O tempo do cristão não éapenas o correr inexorável do relógio, mas oportunidade (Kairós!), nova chance oferecida pela Providência Divina. E venha o Reino deDeus e a sua justiça!
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Dom Alberto TaveiraCorrêa
Arcebispo de Belém – PA

>Advento – Tempo de Esperança!

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O Advento (do latim Adventus: “chegada”, do verbo Advenire: “chegar a”) é o primeiro tempo do Ano litúrgico, o qual antecede o Natal. Para os cristãos, é um tempo de preparação e alegria, de expectativa, onde os fiéis, esperando o Nascimento de Jesus Cristo, vivem o arrependimento e promovem a fraternidade e a Paz. No calendário religioso este tempo corresponde às quatro semanas que antecedem o Natal.

A primeira referência ao “Tempo do Advento” é encontrada na Espanha, quando no ano 380, o Sínodo de Saragossa prescreveu uma preparação de três semanas para a Epifania, data em que, antigamente, também se celebrava o Natal. Na França, Perpétuo, bispo de Tours, instituiu seis semanas de preparação para o Natal e, em Roma, o Sacramentário Gelasiano cita o Advento no fim do século V.

Há relatos de que o Advento começou a ser vivido entre os séculos IV e VII em vários lugares do mundo, como preparação para a festa do Natal. No final do século IV na Gália (atual França) e na Espanha, tinha caráter ascético com jejum, abstinência e duração de 6 semanas como na Quaresma (quaresma de S. Martinho). Este caráter ascético para a preparação do Natal se devia à preparação dos catecumenos para o batismo na festa da Epifania.
Somente no final do século VII, em Roma, é acrescentado o aspecto escatológico do Advento, recordando a segunda vinda do Senhor e passou a ser celebrado durante 5 domingos.
Só mais tarde é que o Advento passou a ser celebrado nos seus dois aspectos: a vinda definitiva do Senhor e a preparação para o Natal, mantendo a tradição das 4 semanas. A Igreja entendeu que não podia celebrar a liturgia, sem levar em consideração a sua essencial dimensão escatológica.

O tempo do Advento é para toda a Igreja, momento de forte mergulho na liturgia e na mística cristã. É tempo de espera e esperança, de estarmos atentos e vigilantes, preparando-nos alegremente para a vinda do Senhor, como uma noiva que se enfeita, se prepara para a chegada de seu noivo, seu amado.
O Advento começa às vésperas do Domingo mais próximo do dia 30 de Novembro e vai até as primeiras vésperas do Natal de Jesus contando quatro domingos.
Esse tempo possui duas características: Nas duas primeiras semanas, a nossa expectativa se volta para a segunda vinda definitiva e gloriosa de Jesus Cristo, Salvador e Senhor da história, no final dos tempos – a vinda escatológica de Cristo. As duas últimas semanas, dos dias 17 a 24 de Dezembro, visam em especial, a preparação para a celebração do Natal, a primeira vinda de Jesus entre nós. Por isto, o Tempo do Advento é um tempo de piedosa e alegre expectativa. Uma das expressões desta alegria é o canto das chamada “Antífonas do Ó”.
O Advento recorda a dimensão histórica da salvação, evidencia a dimensão escatológica do mistério cristão e nos insere no caráter missionário da vinda de Cristo.
Ao serem aprofundados os textos litúrgicos desse tempo, constata-se na história da humanidade o mistério da vinda do Senhor, Jesus, que de fato se encarna e se torna presença salvífica na história, confirmando a promessa e a aliança feita ao povo de Israel. Deus que, ao se fazer carne, plenifica o tempo (Gl 4,4) e torna próximo o Reino (Mc 1,15).
O Advento recorda também o Deus da Revelação. Aquele que é, que era e que vem (Ap 1, 4-8), que está sempre realizando a salvação mas cuja consumação se cumprirá no “dia do Senhor”, no final dos tempos.
O caráter missionário do Advento se manifesta na Igreja pelo anúncio do Reino e a sua acolhida pelo coração do homem até a manifestação gloriosa de Cristo. As figuras de João Batista e Maria são exemplos concretos da vida missionária de cada cristão, quer preparando o caminho do Senhor, quer levando o Cristo ao irmão para o santificar. Não se pode esquecer que toda a humanidade e a criação vivem em clima de advento, de ansiosa espera da manifestação cada vez mais visível do Reino de Deus.
A celebração do Advento é, portanto, um meio precioso e indispensável para nos ensinar sobre o mistério da salvação e assim termos a Jesus como referência e fundamento, dispondo-nos a “perder” a vida em favor do anúncio e instalação do Reino.
A liturgia do Advento nos impulsiona a reviver alguns dos valores essenciais cristãos, como a alegria expectante e vigilante, a esperança, a pobreza, a conversão.
Deus é fiel a suas promessas: o Salvador virá; daí a alegre expectativa, que deve nesse tempo, não só ser lembrada, mas vivida, pois aquilo que se espera acontecerá com certeza. Portanto, não se está diante de algo irreal, fictício, passado, mas diante de uma realidade concreta e atual. A esperança da Igreja é a esperança de Israel já realizada em Cristo mas que só se consumará definitivamente na parusia (volta) do Senhor. Por isso, o brado da Igreja característico nesse tempo é “Marana tha”! Vem Senhor Jesus!

O tempo do Advento é tempo de esperança porque Cristo é a nossa esperança (I Tm 1, 1); esperança na renovação de todas as coisas, na libertação das nossas misérias, pecados, fraquezas, na vida eterna, esperança que nos forma na paciência diante das dificuldades e tribulações da vida, diante das perseguições, etc.
O Advento também é tempo propício à conversão. Sem um retorno de todo o ser a Cristo, não há como viver a alegria e a esperança na expectativa da Sua vinda. É necessário que “preparemos o caminho do Senhor” nas nossas próprias vidas, lutando incessantemente contra o pecado, através de uma maior disposição para a oração e mergulho na Palavra.
No Advento, precisamos nos questionar e aprofundar a vivência da pobreza. Não pobreza econômica, mas principalmente aquela que leva a confiar, se abandonar e depender inteiramente de Deus e não dos bens terrenos. Pobreza que tem n’Ele a única riqueza, a única esperança e que conduz à verdadeira humildade, mansidão e posse do Reino.
O Advento deve ser celebrado com sobriedade e com discreta alegria. Não se canta o Glória, para que na festa do Natal, nos unamos aos anjos e entoemos este hino como algo novo, dando glória a Deus pela salvação que realiza no meio de nós. Pelo mesmo motivo, o diretório litúrgico da CNBB orienta que flores e instrumentos sejam usados com moderação, para que não seja antecipada a plena alegria do Natal de Jesus.
Os paramentos litúrgicos são de cor roxa, como sinal de recolhimento e conversão em preparação para a festa do Natal. A única exceção é o terceiro domingo do Advento, Domingo Gaudete ou da Alegria, cuja cor tradicionalmente usada é a rósea, em substituição ao roxo, para revelar a alegria da vinda do Salvador que está bem próxima. Também os altares são ornados com rosas cor-de-rosa. O nome de Domingo Gaudete refere-se à primeira palavra do intróito deste dia, que é tirado da segunda leitura que diz: “Alegrai-vos sempre no Senhor. Repito, alegrai-vos, pois o Senhor está perto”(Fl 4, 4). Também é chamado “Domingo mediano”, por marcar a metade do Tempo do Advento, tendo anologia com o quarto domingo do Tempo da Quaresma, chamado Laetare.
“Tempo de esperança e de viver
Tempo de ser novo e renascer
Eis que uma criança já se anuncia
Dentro de Maria o céu conosco está
Tempo de esperança e de alegria
Vamos esperar que o Senhor virá
O Libertador já vem!”

>Video de Abertura da Campanha da Fraternidade 2010

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